Publicado por: zeducarvalho | Maio 9, 2008

Cabaré argentino

Tudo corria bem. Navegava entre os labirintos do Centro Cultural Jorge Luis Borges, todos muito bem instalados, abarcando varias linguagens artisticas. Pinturas com variadas técnicas, teatro, cinema, exposicoes, e até uma jornada de debates sobre política latino-americana, eram algumas das opcoes do Centro Borges, acoplado a uma galeria de lojas mais hypes, com roupas de marca e cafés. Na saída, percorria uma das transversais da artéria cultural de Buenos Aires, a Avenida Corrientes, quando fui surpreendido por um entregador de cartoes. Até, entao, tudo bem… Em Buenos Aires uma das ocupacoes para a classe de baixa renda é distribuir cartoes de lojas e cabarés. Sim, no meu caso foi de um cabaré. Já tinha recebido milahres na rua, nao tinha interesse nenhum em ir ao cabaré, apenas um pouco de curiosidade para saber o que eles falavam. Quando fui abordado pelo sujeito pálido, baixo e falante, ele disse, em espanhol:

– Ola! Quer um cartao?

Nao, respondi.

– Tem amigos?

Sim, claro!     Disse.

– Ah! É brasileiro?

– Sim!

– Eu falo portugues. Se tem amigos, vou carimbar esse cartao para voce. Com ele voce tem descontos!

– Tá, pode ser… Mas nao posso agora, nao tenho tempo! Tenho que ir, disse, apressado.

 

Sem conta conversa, ele me puxou até um bar em frente ao lugar que estavamos. Eu estava prestes a atravessar uma movimentada rua, fluxo intenso típico dos grandes centros urbanos. Resolvi chegar até a porta do bar, que era muito pequena e tinha um pano na frente, mas me recusei a entrar. O rapaz insistiu tanto, disse que o carimbo era rápido, mas que precisavam me ver para eu ganhar o desconto. Me identifiquei como Carlos. Uma mulher, quase despida para um final de tarde de frio, veio em minha direcao. Uma roupa fluorescente, iluminada na luz negra, um rosto que aparentava 37 anos, e cabelos negros. Era tudo que conseguia enxergar.

– Ola! Como é o seu nome? Disse a moca, muito animada…

– Carlos.   Respondi, timidamente, completando que nao tinha mais tempo para ficar ali, estava com pressa.

– O cartao já esta descendo com o carimbo. Pode sentar ali, por enquanto.                Apontando para um sofá vintage, pele de vaca.

– No, gracias. Quiero ficar arriba! No tieno tiempo!        Mas, pela insistencia, resolvi sentar. Nao sabia o quanto iria me custar, achei que nao custava nada.

Já com uma de sua pernas sobre as minhas, com os seios impostados praticamente em minha casa, a moca, que nao me recordo o nome, disse:

– Se quer massagem, sexo ou qualquer outra coisa, nao precisa pagar pelas chicas (mulheres). Paga apenas uma bebida pra gente, sim? O que quer?

– Nao quero nada, preciso ir embora, estou esperando o cartao para meus amigos. Nao tenho tempo agora, deixamos pra depois. Respondi, sem graca, desajeitado com as insinuacoes…

– Tudo bem…     Logo chegou uma mulher, falando pelos cotovelos, com tres bebidas iluminadas pela luz negra.

Isso deve bater uma onda… Capaz eu nao lembrar de nada depois, pensei.

– Nao, nao quero beber, gracias.   Disse.

Quando consegui me levantar, já me sentindo sufocado com a chica falando em meu ouvido, disse que nao ia esperar mais nada, que tinha pressa etc. Mil desculpas!

Imediatamente, outra mulher apareceu nao sei de onde – talvez estivesse atrás do balcao – dizendo que eu tinha que pagar, com a mao prontamente estendida. As outras duas, a essa altura, já estavam ao seu lado, olhando pra mim com cara de bad girls.

– Nao, nao vou pagar nada. Nao consumi nada, disse.

– Tem que pagar sim. Estava conversando com a moca e tem bebidas.

A outra, que chegou oferecendo as bebidas, apontou para um aviso ao lado do sofa, que dizia: consumicion obrigatoria.

(Claro, nao me pediram para sentar ali por acaso. Nada é por acaso, né?)

Expliquei inumeras vezes que nao sabia que era um cabaré e que tinha entrado para pegar um cartao. Pagava o preco de minha curiosidade. Nao tenho amigos em Buenos Aires, muito menos cinco, a quantidade que inventei… As tres mulheres nao se moviam, apesar de eu tentar atravessa-las para tentar ir embora. Depois de eu gritar muito, ameacar chamar a policia e tudo que vinha em minha cabeca, aparecer um cara alto, magro, dizendo que eu tinha que pagar. Só conseguia ver sua careca branca e seu piercing fluoro na boca. Quando fui explicar, ele disse que já tinha dito a mesma coisa 35x. Acredite! Ainda disse que tudo estava filmado, que “la chica” estava em meu colo… Quandoa me dei por vencido, nao tinha mais argumentos e nem conseguia sair, comecei a empurar com forca “las chicas”, mas o grandao disse que eu nao poderia agredi-las, e que ainda dava tempo escolher uma delas.

– Tire elas de minha frente ou eu faco uma besteira!  Disse, gritando, muito nervoso.

Duas saíram e a outra ficou mais adiante para interceptar meu caminho.

Consegui sair, pois já tinha pago 50 pesos, e elas ainda ficaram gritando, dizendo:

– Hijo de puta, tu ainda deves 60 pesos da bebida….

Saí do cabaré “Curvas bar” espumando de raiva. Procurei o maldito entregador de cartoes, mas nao o encontrei. Outros me olhavam como se eu tivesse desfrutado “las chicas” de las “Curvas”…


Respostas

  1. Vai confiar em argentino…

  2. QUAQUAQUA Eu te disse para pegar cartões para mim, mas não para ir atrás de descontos ou entrar nos lugares!!!!!!! Ainda mais em cabarés!!!!!!!! Será que eram travestis??? Deverias ter aproveitado né… rsrsrsrs Tás juntanduns cartões para mim?! Ouuhuhuh si si si por favore! Saudades :)

  3. Pois é Zedú, vai ter que viajar muito ainda, e passar por algumas outras situações assim até aprender.
    O mundo é cheio dessas armadilhas pra pegar os desavisados.
    Eu mesmo já caí em várias, hehehehehehe
    Grande abraço amigo, boa sorte, e vá aprendendo. :)

  4. Esqueceu a mandinga em casa!
    Mas é isso, toda cidade tem seus encantos e armadilhas, me lembrei do pelourinho, lugar de Salvador que é a maior ratoeira de turistas que já vi, sempre ouvi: no Pelourinho, fique esperto! Na Espanha(que nunca fui, mas soube por amigos): cuidado com os batedores de carteira de Madrid, são rápidos!, vai ver que em terras portenhas o lance é muito cuidado com descontos ou promoções, liquidação então, nem pensar!

  5. Edu, tome tento. Olhe no seu e-mail que estarei te passando o telefone de minha amiga-irmã argentina. Preste atenção, porque em Santiago será pior, lá as pessoas são roubadas mesmo, não tem figuração.
    Beijo.

  6. PErson, acabei de ler pela primeira vez o seu roteiro. Então, a última cidade no norte do CHile é Arica. Ali, vc vai passar para Tacna, no Peru, onde pode pegar, em vez de ir para Cuzco, conforme colocou, um ônibus para PUNO, que é no Lago Titicaca. Em Arica, peguei um atravessador de fronteira, junto com umas peruanas. Deu tudo certo. Ele me levou até o ônibus, que não era na rodoviária, muito estranho…Em Puno, vc pode fazer um passeio para Copacabana, na Bolívia, tem uns templo lindos e é onde foi a origem da civilização Inca. Vale a pena, não tive tempo de fazer. PUNO é maravilhosa, tem os Uros. Em Santiago, não deixe de visitar a casa de Neruda, museu com todas suas coisas. E em Viña del Mar tb. É inspirador. Perto da casa dele, em Santiago, tem um parque lindo, das esculturas. VAle um passeio com calma. As pessoas ficam tocando cello, violino, estudantes. Muito legal. Essa relação com os parques é tão mais legal na América Hispânica. Pense em ficar um ou dois dias em Mendoza. É simpática, te dará outra noção da cultura argentina (não portenha) e é a metade do cominho entre BUenos Aires e Santiago, MAs só se tiver tempo…Santiago e o Chile são mais que impressionantes. Beijo.

  7. Eiiita… cabeluda essa historia… (ou era raspadinha?)

    Desejo luz no seu caminho… mas cuidado com as vermelhas… uheuhuheuheue

    Abração, meu velho!

  8. hahahahahahahaha
    que história meu filho…
    e vc ainda vai passar por muitas..
    e que invejaa que vc foi pru centro cultural de jorge luis borges
    aiiiii quero tambemm
    menino
    kd as ftos???
    coloque pelo uma por aqui..
    eita..
    e cuidado.. com esses argentinos
    hahah
    bjoss

  9. putz! como diria tininho: “quase, hein, nego!” rsrs… ouvir “hijo de puta” de argentino foi fodz.

    também quero fotos! :)

    bjuuus

  10. Zé, existe uma diferença entre o turista e o viajante. O turista passa pela cidade comparando tudo que já viu nas suas experiências de vida. Já o viajante encara o novo da forma mais experimental possível. Cabe a você escolher. Achei ótima a sua iniciativa de relatar a sua viagem. Cheguei a fazer isso com Day quando fomos pra Gramado, mas, não levei tão adiante.
    Descubra o novo ser que nasce a cada dia dentro de vc e continue tendo uma boa viagem.

    bjus*

  11. ahahahahahahahha
    essa foi a melhor história até agora!!!
    eu imaginei a sua cara em todos os momentos…
    não me controlei aqui – hahahahahaha =)
    Zé, estava mesmo precisando ler algo assim.
    Quando chegar eu quero ler esse bloquinho que deve estar ainda mais cheio de informação. Ou posso esperar o livro???

    ameeeei!!!!

  12. Zé eu fico imaginando sua cara com um cena dessa!!
    Seu texto está maravilhoso, nem parece aquele colega que eu passei 4 anos vendo todos os dias!!!
    Se isso dé um livro ? (VENDIDO)
    Toma cuidado !!!!!
    Sorte!!!

  13. Dudu,
    Adorei a sua estória, fico imaginando a sua cara, mais feliz acompanhando o seu crescimento. Toda experiência é válida, cada aprendizado!
    Beijos, Sil

  14. vai lá meu

  15. Cara!!!

    Incrível!!! Rolou a mesmisíma coisa comigo em BUE, só que foi uma mulher que me deu o cartão e foi me puxando pelo braço. A mesma merda: sentei, veio bebida (que eu não bebi claro), uma loira e uma morena sentaram do meu lado. Quando quis sair um cara de dois metros x dois metros parou em minha frente e ficamos discutindo. Ele disse:

    “Paga ou chamo la gente que te saca a plata.”

    Disgrace!!! Menti que não tinha grana e tive que abrir minha carteira, daí 40 pesos se foram e eu puto!!!

    Já viajei muito, já estive no Chile, várias cidades do nordeste, Curitiba e etc…

    A primeira vez que caio em uma pegadinha destas.


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